Carta aberta aos projetos sociais e captadores de recursos

abril 21, 2017 By instituto-phi

Caros colegas de profissão, as próximas linhas são destinadas àqueles que estão com dificuldades para captar dinheiro para seus projetos sociais. Vamos lá:

 

TEM MUITO DINHEIRO PARA DOAÇÃO NO BRASIL. MUITO. MUITO MESMO!

 

“Mas e essa crise!? O país está uma loucura”

 

Olha… o que a tal crise fez foi, no máximo, transformar o Oceano Pacífico de dinheiro excedente em Oceano Atlântico. Em qualquer um dos casos, você não conseguiria nadar o oceano todo. Se sobrava um montão, agora sobra um monte, o que para você dá na mesma.

 

“Se sobra dinheiro, porque meu projeto está nessa situação? Até a luz já quase foi cortada!”

 

Se sobra dinheiro e você passa dificuldades, a mensagem é clara: VOCÊ (repetindo: VOCÊ) não está sabendo chegar lá e precisa repensar a sua abordagem. E podemos te dizer, por experiência própria, que a maioria dos projetos não sabe MESMO chegar lá.

 

Apesar de precisarem de dinheiro para sobreviver, a maioria dos que conhecemos não tem uma área de captação – e quando tem são incrivelmente amadoras. É inacreditável que coloquem uma função vital da instituição para ser executada como “segunda ocupação” de alguém, mas é o que acaba acontecendo:

 

“Joãozinho é quem cuida de captação aqui! Ele vai buscar doação de arroz, paga as contas, troca lâmpada e quando surge uma oportunidade com uma empresa ou um milionário, bota aquela camisa social bonita e vai conversar!”

 

Enquanto a captação for uma preocupação secundária do seu projeto ele vai viver ETERNAMENTE na corda bamba – a menos que apareça uma ligação com uma doação milionária, mas eu não contaria com isso.

 

Pense numa analogia: você precisa fazer um material gráfico legal, mas como não pode pagar por algo profissional pede pro seu sobrinho que “entende de internet” fazer. O que resulta disso? Um material terrível, feito com muito amor, “melhor que nada”. Pois é, com captação é a mesma coisa. Você entrega a função pro Joãozinho e ele capta quando dá, “melhor que nada”. No fim do mês a conta não fecha.

 

Poderíamos nos alongar por páginas (não é exagero carioca, realmente seriam páginas) de exemplos de projetos que praticamente jogam possibilidades de doação fora. Já conversamos com dezenas de “Joãozinho”. Gente que chega aqui para captar recursos sem sequer se preparar dignamente para a reunião e ler o que o Phi faz. Promete e-mails que nunca chegam. Envia e-mails com duas, às vezes até três tipos de letra diferentes. Projeto que faz reunião sem ter ideia do seu objetivo. Que tem o sonho dourado de construir uma piscina (ou nova sede, ou telhado novo, ou sala), mas nem sequer tem ideia de quanto custa.

 

Uma vez conversamos com o projeto J (nome fictício). Durante a reunião, a história da dura realidade: a comunidade é muito pobre, falta dinheiro pro projeto, vamos ter que cortar tal coisa, não sei se vamos fazer o natal de sempre. Olhos marejados. Consternação no ar, afinal, sabemos de todas as dificuldades vividas. Tínhamos “na manga” um doador de R$ 10 mil já bem encaminhado. Sabíamos que ele salvaria a lavoura, mas antes de anunciar que havia O INVESTIDOR, fizemos aquele teste básico: pedimos um e-mail, UM SIMPLES E-MAIL, pedindo um orçamento, para testar a real entrega do projeto. Vocês receberam o e-mail? Nós nunca e também não deixaram o email deles (estavam sem cartão). E assim perderam R$ 10 mil.

 

“Tá bom. Você falou, falou, falou, mas e ai??”

 

Se você não tem no seu projeto um captador de recursos que faça apenas isso (ou, no mínimo, prioritariamente isso) você provavelmente passa e passará dificuldades financeiras. O DINHEIRO EXISTE. Poréeeeem, captar é uma atividade repetitiva, que exige foco, dedicação e pensamento de looongo prazo. A maturação é lenta. Não imagine que um trabalho mais ou menos vá te salvar. Se seu projeto não capta, a responsabilidade é sua. O melhor que seu Joãozinho conseguirá fazer é apagar o incêndio que você mesmo criou.