Edital Relâmpago: primeiras impressões (da última hora)

janeiro 26, 2018 By instituto-phi

Dias 4 e 11 de novembro de 2018. Anote essa data! Suas mídias sociais serão invadidas por imagens dos atrasados do Enem – pessoas que, por segundos, não conseguem entrar nos locais de prova para fazer o Exame Nacional do Ensino Médio e perdem um ano de estudos.

 

Outra previsão: no dia 28 de abril o Jornal Nacional vai ser aberto com a manchete “O envio da declaração do Imposto de Renda vai até hoje, mas xx milhões de brasileiros ainda não enviaram a sua”.

 

O que nós temos a ver com o ENEM e com o Imposto de Renda? Essa semana vivemos, aqui no Phi, um pouco disso. Às 23:59 do dia 22 se encerrava o prazo de inscrições para o Edital Relâmpago. Ele ficou aberto desde 15/01 e os projetos escolhidos receberiam uma doação entre R$ 50mil e R$ 70 mil. Seu preenchimento era simples: 28 perguntas, envio de quatro documentos básicos (Ata, Estatuto, CNPJ e RG do presidente) e um vídeo que poderia ser feito por celular. Qualquer dúvida seria solucionada por um e-mail específico.

 

Esse é o gráfico da quantidade/dia das inscrições:

Apesar dos projetos terem tido 192 horas para se inscrever, 193 das 276 inscrições ocorreram no último dia!!! Quase 70%!!! Se aproximarmos a lupa, o número é ainda mais impressionante: 50% foram nas últimas 6 horas, sendo 31 na última hora e 10 nos últimos 10 minutos.

 

No caso do edital, os efeitos negativos da “última hora” foram perceptíveis: dos últimos 20 projetos inscritos, 17 foram considerados inelegíveis por falta de documentação, orçamento fora do intervalo solicitado ou por estarem fora da causa, ao passo que dentre os 20 primeiros, apenas 4 ficaram inelegíveis.

 

Para além do edital, qual a extensão dos danos dessa cultura da “última hora” para o terceiro setor? E para a nossa sociedade? Será que parte das reclamações dos projetos pela falta de recursos não está associada a isso? Será que as obras que consomem milhões a mais por falta de planejamento e estouro de prazo também não são, em certa medida, legado dessa cultura?

 

A última hora está intimamente relacionada com desperdício e má execução. Em um levantamento de 2011, 52% dos profissionais brasileiros afirmaram que deixam atividades necessárias para última hora. Numa visão maior, um relatório de novembro de 2017 do Banco Mundial apontou que o Brasil economizaria R$ 500 bilhões por ano se aumentasse a eficácia dos gastos públicos – que são comandados por brasileiros, gente como a gente.

 

Ficamos positivamente impressionados com a quantidade e qualidade das iniciativas que se inscreveram. Mas ficamos igualmente impressionados em ver tantos projetos que pedem por uma oportunidade deixarem tudo para a última hora. Independentemente dos políticos, da crise ou de qualquer outro bode expiatório, vale a reflexão sobre até que ponto nós e o nosso comportamento não favorecem aquilo do que reclamamos.