Heróis e Vilões — Redução da Maioridade Penal por quem convive diariamente com os jovens

outubro 26, 2017 By instituto-phi

Escrito por Eduardo Caon, Coordenador de Educação do Departamento Estadual do DEGASE — Departamento Geral de Ações Socioeducativas — e idealizador do TV DEGASE e publicado originalmente no blog do Atados

 

Esteve em cartaz um filme de animação chamado “Megamente” da Dreamworks e ele conta, basicamente, a história de dois extraterrestres que caem na terra ainda bebês, sendo que quando eles crescem um se transforma num super-herói e o outro no vilão.

 

Discretamente mostrado ainda no início do filme, um deles cai num lar de uma família carinhosa e o outro no Presídio, não preciso dizer quem se tornou o que.

 

Este conto de animação em 3D colocou, em gigantes telas coloridas à nossa frente, a origem de mais de noventa por cento dos adolescentes em conflito com a Lei.

 

A maneira brincalhona e despretensiosa dos roteiristas joga luz num problema que a nossa sociedade não encontra tempo para pensar: “De onde vêm estes meninos e meninas?” ou ainda “Crianças já nascem bandidas?”. Minha experiência à frente da Coordenação de Educação do Departamento Estadual que cuida destes jovens — o DEGASE — me obrigou a responder isso, quando, rapidamente, você aprende que não deve perguntar pelos pais deles, pois ou é uma história de ausência ou pior: De violência.

 

Para muitos deles o conceito de honestidade é completamente desconhecido.
No meio em que cresceram tomar, à força, o tênis de alguém não é errado, pois o “playboy” de quem ele roubou o calçado ou mesmo o carro, pode comprar outro, é uma espécie de inimigo e representa o culpado da sua situação infeliz.

 

No nosso trabalho diário encontramos jovens que, aos dezessete anos, sabem montar e desmontar uma pistola, mas não conseguem segurar uma caneta e escrever seu próprio nome.

 

Depois de um tempo neste convívio com eles, você percebe que as centenas de alunos dos cursos profissionalizantes que oferecemos obedecem a uma coreografia emocional idêntica, onde eles chegam arredios, desconfiados, com gestos caricatos de facções criminosas, mas se sentam na sala de aula. Então você entra nesta classe, os chama pelo nome, ouve suas reclamações e toma atitudes justas, às vezes cedendo aos seus pedidos de mais material escolar, pois a sua caneta sumiu, às vezes negando mais tempo para o intervalo de lanche ou banheiro, mas acima de tudo mostrando um comportamento totalmente novo para eles, mostrando a eles como ser um cidadão.

 

Antes do fim da terceira semana de curso a conhecida coreografia mostra agora meninos e meninas que te olham com esperança de crianças, aquela criança que estava perdida nos sonhos de um jovem que não teve tempo de deitar tranqüilo o suficiente para poder sonhar.

 

Então chega a formatura e eles, com um sorriso humano, pousam para foto com o seu certificado nas mãos ao lado de uma mãe em lágrimas. Não é difícil saber quando eles já estão sonhando, basta olhá-los neste dia. Então quando falamos que entrar no crime é uma escolha, temos que nunca ter conversado com um deles, pois trabalhar com eles todos os dias deixa claro suas carências emocionais, sociais, educativas e cognitivas, são tantas que meu sobrinho de dezesseis, que nasceu com uma família que sempre lhe deu carinho, poderia dar aulas para os jovens de dezoito anos que estão atrás das grades. Quando a sociedade quer entender que dezesseis anos de um é igual a dezesseis anos de outro, este tipo de conclusão simplista flerta com o tragicômico.